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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Religião

Esses dias eu fui numa festa. Um monte de gente comendo, falando alto, dançando, sorrindo. Num canto, uma senhora carrancuda. Perguntei ao amigo “quem é?”, “é minha mãe”, respondeu. E por que tá triste? Não tá triste, tá irritada e nervosa. Por quê? Porque é crente e estamos tocando músicas não cristãs na festa.
Que merda essa religião que castra o corpo, que enrijece a alma, enruga o rosto e recrudesce o espírito. E não só o de seus adeptos, mas o de todos que se submetem mesmo que como alvo desse olhar austero.

Esses dias vi um programa em que um hare krishna passava uma semana na casa de uma família bem humilde e católica. Ele infernizou a casa em sete dias. Queria impor seus ritos e uma liturgia que contemplasse mais as suas necessidades religiosas do que a possibilidade de uma relação alegre entre diferentes. Lá pelo terceiro dia, as crianças da casa, principal aferidor de saúde emocional e alegria de um ambiente, já não aguentavam mais o sacerdote laranja.
Que merda essa religião que impõe ritos e liturgias que mais nos abstraem da vida e das relações do que nos projetam para o mundo e para os outros, oferecendo uma espiritualidade sadia.
Esses dias uma menina evangélica foi agredida na escola porque tinha o cabelo comprido. Ela só tinha 12 anos e teve que mudar de escola e cidade por conta da hostilidade.
Esses dias foi uma outra menina de 11 anos, agredida a pedradas ao sair de um encontro do candomblé.
Outro dia foi uma menina de 11 anos, perseguida por uma freira num colégio por não saber rezar. Ficou sem a refeição por dias a fio, até, pela dor da fome, ter a coragem de contar para a mãe o que estava acontecendo.
As três poderiam ser amigas, confidentes, terem os mesmos sonhos e desejos castrados pelo medo de ser o que, talvez, nem saibam o quê.
Que merda essa não religião que não tolera a religião.
Que merda essa religião que desrespeita o outro e o agride por ter outra religião.
Que merda essa religião que não tolera a ausência da religião.

[...]

Fabrício Cunha dos Santos

Postado original e integralmente no perfil do Facebook do autor.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O Panóptico de Foucault

O Panóptico de Bentham [...] é conhecido: na periferia, uma construção em anel; no centro, uma torre; esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior correspondendo às janelas, uma para o interior correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um escolar. Pelo feito da contraluz, pode-se perceber da torre, recortando-se exatamente sobre a claridade, as pequenas silhetas cativas as celas da periferia. Tantas jaulas, tantos pequenos teatros, em que cada ator está sozinho, perfeitamente individualizado e constantemente visível. O dispositivo panóptico oganiza unidades espaciais que permitem ver sem parar e reconheer imediatamente. Em suma, o princípio da masmrra é invertido; ou antes, de suas três funções - trancar, privar de luz e esconder - só se conserva a primeira e suprimem-se as outras duas. A plena luz e o olhar de um vigia capta melhor do que a sombra, que finalmente protegia. A visibilidade é uma armadilha [...].
 Daí o efeito mais importante do Panóptico: induzir no detento um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder. Fazer com que a vigilâncias seja permanente em seus efeitos, mesmo se é descontínua em sua ação; que a perfeição do poder tenda a tornar inútil a atualidade de seu exercício; que esse aparelho arquitetural seja um máquina de criar e sustentar uma relação de poder dependente daquele que o exerce; enfim, que os detentos se encontrem presos numa situação de poder de que eles mesmos são os portadores.  Para isso, é ao mesmo tempo excessivo e muito pouco que o prisioneiro seja observado sem cessar por um vigia: muito pouco, pois o essencial é que ele se saiba vigiado; excessivo, porque ele não tem necessidade de sê-lo efetivamente. Por isso, Bentham colocou o princípio de que o poder devia ser visível e inverificável. Visível: sem cessar o detento terá diante dos olhos a alta silhueta da torre central de onde é espionado. Inverificável: o detento nunca deve saber se está sendo observado; mas deve ter certeza de que sempre pode sê-lo. Para tornar indecidível a presença ou a ausência do vigia, para que os prisioneiros, de suas celas, não pudessem nem perceber uma sombra ou enxergar uma contraluz, previu Bentham, não só persianas nas janelas da sala central de vigia, mas, por dentro, separações que a cortam em ângulo reto e, para passar de um quarto a outro, não portas, mas biombos: pois a menor batida, a luz entrevista, uma claridade, numa abertura, trariam a presença do guardião. O Panóptico é uma máquina de dissociar o par ver-ser-visto: no anel periférico, se é totalmente visto, sem nunca ver; na torre central, vê-se tudo, sem nunca ser visto.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 34ed. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 165-167.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Diversidade Cultural - Estudos de caso

A cultura de uma determinada sociedade pode diferir profundamente de outra, o que é sagrado para uma pode ser repugnante para outra, o que é certo para uma pode ser errado para outras. Veja alguns exemplos:
- O homem recebe do meio cultural, em primeiro lugar, a definição do bom e do mau, do confortável e do desconfortável: Os chineses preferem os ovos podres e os oceanenses o peixe em decomposição. Para dormir, os Pigmeus procuram a incómoda forquilha de madeira e os Japoneses deitam a cabeça em duro cepo. 
- O homem recebe do seu meio cultural um modo de ver e de pensar: No Japão considera-se delicado julgar os homens mais velhos do que são e, mesmo durante os testes e de boa-fé, os indivíduos continuam a cometer erros por excesso. 
- O homem também retira do meio cultural as atitudes afetivas típicas: Entre os Maoris [Nova Zelândia], onde se chora à vontade, as lágrimas correm só no regresso do viajante e não à sua partida. Nos Esquimós, que praticam a hospitalidade conjugal, o ciúme desapareceu (...). Nas ilhas Alor [Indonésia], a mentira lúdica considera-se normal; as falsas promessas às crianças constituem um dos divertimentos dos adultos. O mesmo espírito encontra-se na ilha de Normanby onde a mãe, por brincadeira, tira o seio ao filho que está a mamar. 
O respeito pelos pais sofre igualmente flutuações geográficas: O pai conserva o direito de vida e de morte entre os Negritos das Filipinas e em certos lugares do Togo, dos Camarões e do Daomé. Em compensação, a autoridade paterna era nula ou quase nula nos Kamtchatka [da Sibéria] pré-comunistas ou nos aborígenes do Brasil. As crianças Taraumaras [do México] batem e injuriam facilmente os pais. Entre os Esquimós o casamento faz-se por compra. Nos Urabima da Austrália um homem pode ter esposas secundárias que são as esposas principais de outros homens. No Ceilão [atual Sri Lanka] reina a poliandria fraternal: o irmão mais velho casa-se e os mais novos mantêm relações com a cunhada. (…) O amor e os cuidados da mãe pelos filhos desaparecem nas ilhas do estreito de Torres [Austrália] e nas ilhas Andaman [Índia], em que o filho ou a filha são oferecidos de boa vontade aos hóspedes da família como presentes, ou aos vizinhos, como sinal de amizade. A sensibilidade a que chamamos masculina pode ser, de resto, uma característica feminina, como nos Tchambuli [Nova Guiné], por exemplo, em que na família é a mulher quem domina e assume a direção.
Os diferentes povos criaram e desenvolveram um estilo de vida que cada indivíduo aceita – não sem reagir, decerto – como um modelo. 

 Lucien Malson, As crianças selvagens, Livraria Civilização, 1988, pp. 26-28.

sábado, 18 de abril de 2015

Uma outra visão sobre a publicidade

A publicidade tem força o suficiente de fazer as pessoas mudarem seus hábitos, e muitas vezes pra melhor. Desde sempre sabemos que uma publicidade bem feita, consegue mudar o mundo, e isso é muito importante na missão dessas campanhas atuais.
Muitas pessoas têm o costume de reclamar sobre as agências de publicidade, que estas só estão produzindo anúncios para gerar empresas de lucro, mas isso não é só para isso. Os anúncios deste post, por exemplo, mostram uma outra proposta de publicidade, com viés de conscientização social.
Confira abaixo:

#01. Vítimas também são pessoas, igual eu e você

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Advertising Agency: Advico Y&R, Zurich, Switzerland

#02. Pare com a violência, não beba e dirija.

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Advertising Agency: Terremoto Propaganda, Curitiba, Brazil

#03. A cor da sua pele não deveria decidir o seu futuro

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Advertising Agency: Publicis Conseil, Paris, France

#04. Mais devagar é melhor

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Advertising Agency: Cramer-Krasselt, Milwaukee, USA
 Tradução: 46 dias na cama do hospital

#05. Salve papel – Salve o planeta

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Advertising Agency: Saatchi & Saatchi, Copenhagen, Denmark 

#06. Poluição de ar mata 60.000 pessoas por ano

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Advertising Agency: unknown 

#07. Dar um like não é ajudar. Seja um voluntário. Mude uma vida.

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Advertising Agency: Publicis, Singapore 

#08. Liga de Anti-Crueldade de Animal. Pare o abuso.

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Advertising Agency: Lowe Bull, Cape Town, South Africa 

#09. Não converse enquanto dirige.

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Advertising Agency: Mudra Group, India 

#10. Não está acontecendo aqui. Mas está acontecendo agora.

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Creative/Art director Pius Walker, Amnesty International, Switzerland. 

#11. Censura conta a história errada.

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Advertising Agency: Memac Ogilvy & Mather Dubai, UAE 

#12. A cada 60 segundos uma espécie morre. Cada minuto conta.

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Advertising Agency: Scholz & Friends, Berlin, Germany 

#13. Onde está o Pedófilo?

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Art Director: Michael Arguello, Copywriter: Bassam Tariq, Additional credits: Jason Musante 

#14. Abusadores sexuais podem se esconder no smartphone dos seus filhos.

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Advertising Agency: Herezie, Paris, France 

#15. Fumar causa velhice precoce.

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Advertising Agency: Euro RSCG Australia 

#16. Você não é um desenho. Diga não para a anorexia.

Advertising Agency: Revolution Brazil

#17. Crianças negligenciadas se sentem invisíveis. Pare o abuso infantil.

Australian Childhood Foundation, JWT Melbourne

#18. Sacolas plásticas matam.

Advertising Agency: BBDO Malaysia, MALAYSIA, Kuala Lampur/ Advertising Agency: Duval Guillaume, Belgium

#21. Para os desabrigados, cada dia é uma luta.

Advertising Agency: Clemenger BBDO Melbourne, Australia


#22. Por favor, não perca o seu controle enquanto bebe.

Advertising Agency: EURORSCG Prague, Czech Republic


#27. Quanto mais tempo uma criança sem autismo fica sem ajuda, mais difícil fica de chegar perto dela.


Advertising Agency: CHI & Partners, London, UK


#29. Trabalhadores não são ferramentas.


Advertising Agency: VVl BBDO, Belgium

Post original e completo: Blog Planeta Queijo

quarta-feira, 18 de março de 2015

Mulheres na publicidade

“Não existem muitos casos de propagandas machistas no Brasil porque a publicidade brasileira é madura para perceber que a pior coisa que pode fazer é irritar o consumidor, seja ele mulher, homem ou criança. De qualquer forma, nós não temos uma declaração oficial a respeito desse assunto”. Essa foi a resposta da assessoria de imprensa do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), por telefone, à pergunta da Pública referente a algumas peças publicitárias lançadas no Carnaval e no Dia Internacional da Mulher, rechaçadas nas redes sociais por serem consideradas machistas – algumas inclusive retiradas de circulação. O Conar é um órgão de autorregulamentação das agências publicitárias, encarregado de receber denúncias de consumidores ou órgãos públicos e julgar se a propaganda deve ser tirada do ar e a agência eventualmente advertida. Das 18 denúncias de machismo em propaganda recebidas em 2014 (pesquisadas pela Pública no site do Conselho), 17 foram arquivadas, e apenas uma, da cerveja Conti, que dizia em sua página do Facebook “tenho medo de ir no bar pedir uma rodada e o garçom trazer minha ex” terminou com um pedido de suspensão e advertência da agência que realizou a campanha.
Outra campanha, do site de classificados bomnegócio.com, em que o Compadre Washington chamava uma mulher de “vem ordinária”,que havia recebido pedido de suspensão, foi posteriormente reavaliada e o processo arquivado. As justificativas das decisões geralmente são de que as propagandas não são machistas mas sim humorísticas, como esta de março de 2014, referente a um spot de rádio da Itaipava: “Uma consumidora paulistana entendeu haver preconceito machista em spot de rádio da cerveja Itaipava. A anunciante e sua agência alegam o caráter evidentemente humorístico da peça publicitária. O relator aceitou esse ponto de vista e recomendou o arquivamento, voto aceito por unanimidade”.
A visão do Conar parece ser compartilhada pela maioria das agências, criadoras das peças publicitárias. Chamada a dialogar sobre a campanha “Verão” em que uma mulher chamada Vera é impedida de passar por um homem na praia, ela tentando correr e ele barrando sua passagem com o slogan “não deixe o Verão passar” ou em uma que ela leva e traz cervejas para os homens só de biquíni enquanto eles olham para seu corpo e chamam “vem Verão, vai Verão” ou ainda uma terceira em que a moça aparece de biquíni com uma lata e uma garrafa de cerveja na mão com o slogan “faça sua escolha” com a indicação de 300, 350 ou 600 ml – estes em uma alusão ao silicone do seio da modelo, a agência preferiu se pronunciar apenas por e-mail de sua assessoria de imprensa. “A Y&R, agência que criou a campanha, respeita, bem como seu cliente, todas pessoas e em especial as mulheres. Em momento nenhum faz qualquer tipo de alusão para desmerecer ou agredir quem quer que seja e considera que o humor utilizado não tem tom de agressividade ou qualquer juízo de valor”.
Peça publicitária da campanha “Verão” da Itaipava / Reprodução
Peça publicitária da campanha “Verão” da Itaipava / Reprodução
As entrevistas também foram negadas pela agência F/Nazca Saatchi & Saatchi, responsável pela campanha da Skol para o Carnaval que teve que mudar a campanha depois que seus cartazes de “Deixei o não em casa” foram pichados com a frase complementar “mas trouxe o nunca” por duas garotas de São Paulo, e pela Ajinomoto do Brasil, fabricante da Sopa Vono, que teve sua fanpage no Facebook invadida por reclamações por peças consideradas machistas e também teve de tirá-las do ar. Via assessoria de imprensa a F/Nazca Saatchi & Saatchi e a Ajinomoto disseram que lamentam o ocorrido, respeitam as mulheres, que o objetivo da peça era humorístico e que estão repensando suas estratégias.
De onde surge então o machismo das peças criadas pelas agências? Uma nova pista surgiu quando através de um pedido feito em um grupo fechado no Facebook, 15 mulheres de 20 a 40 anos, atuantes em áreas diversas da publicidade contaram à Pública como é o ambiente em que trabalham, dentro das agências. Os relatos, feitos sob anonimato pelo temor de perder o emprego, trazem casos de abuso, assédio e violência psicológica que viveram ou ainda vivem em suas carreiras. Trechos destes depoimentos estão destacados ao longo do texto.

A campanha de Vono que foi retirada do ar após reclamações na fanpage da marca
A campanha de Vono que foi retirada do ar após reclamações na fanpage da marca
Anúncio da Skol e a intervenção de Mila Alves e Pri Ferrari. A foto teve mais de 8 mil curtidas no Facebook / Foto: Reprodução
Anúncio da Skol e a intervenção de Mila Alves e Pri Ferrari. A foto teve mais de 8 mil curtidas no Facebook / Foto: Reprodução
“Antes de falarmos sobre publicidade machista, temos que falar sobre machismo na publicidade” argumenta a diretora de criação Thaís Fabris, idealizadora do projeto 65|10 que discute o papel da mulher na publicidade. “O ‘65’ vem do dado de uma pesquisa do Instituto Patrícia Galvão que aponta que 65% das mulheres brasileiras não se identificam com a publicidade e com a forma com que são retratadas pela publicidade. O número ‘10’ é de uma pesquisa que nós fizemos que mostrou que apenas 10% dos criativos dentro das agências brasileiras são mulheres. E é na criação que as campanhas são feitas”.

Mais um anúncio da Skol
Mais um anúncio da Skol
A gerente de planejamento Carla Purcino concorda: “Quando a gente olha para a representatividade feminina na publicidade percebe que é praticamente 50%. Mas a distribuição dentro dos departamentos é muito diferente. Entende-se que a criação é um reduto masculino e que a mulher é mais adequada para o departamento de atendimento. E na maioria das vezes as mulheres do atendimento precisam ser bonitas para seduzir os clientes. Quem trabalha no meio sabe de agências que já demitiram times inteiros de funcionárias dessa área por não serem tão bonitas. ‘Contratem garotas bonitas’. E isso obviamente influencia sobremaneira o resultado final”. As duas disseram topar dar o nome por trabalharem hoje em agências mais inclusivas mas Carla lembra que chegou a ouvir de um diretor de uma agência onde trabalhou, após pedir a negociação de alguns direitos trabalhistas, que “se ela fosse homem ele meteria a mão na sua cara”. Por outro lado, por se colocar contra campanhas machistas nas agências onde trabalhou, ela já foi chamada a ajudar quando uma delas foi atacada nas redes sociais: “Me pediram ajuda para contornar a situação e a gente conseguiu resolver mas a coisa ainda acontece muito de fora pra dentro. Por pressão das pessoas as agências são obrigadas a resolver aquelas campanhas pontuais, a coisa não parte de dentro pra fora. É algo como ‘ai, que gente chata’. E as publicitárias ainda têm muito medo de se pronunciar. Elas normalmente se calam diante de piadas e colocações machistas para não perderem seus empregos. Tem uma grande agência que entrega, na festa de fim de ano, um prêmio chamado ‘calota de ouro’ referindo-se ao volume da vagina da mulher. E para sobreviver, elas acabam entrando no jogo”.

Veja aqui, imagens encontradas da festa da agência África em 2010.
“Trabalhei para marcas como Brahma, Skol e Budweiser, em que o machismo impera em qualquer peça de comunicação. Por mais que tentássemos abrandar ou mostrar um novo viés para a campanha, sempre éramos obrigadas a seguir os conceitos e o lugar-comum das marcas de cerveja em que a mulher é só mais um ser criado para satisfazer e obedecer o homem”. R.J. 32
Como diretora de criação, Thaís diz que, para fazer parte do grupo, muitas mulheres também acabam se masculinizando e até reproduzindo esse machismo. “É a maneira que encontram de preservar suas carreiras. Emudecem e não questionam ou entram na lógica e reproduzem”.
Propaganda do Ministério da Justiça também foi considerada machista e retirada do ar / Foto: Reprodução
Propaganda do Ministério da Justiça também foi considerada machista e retirada do ar / Foto: Reprodução
Não existem dados oficiais sobre diferenças de salários e cargos na publicidade brasileira separados por gênero mas no geral, segundo o PNAD de 2013, mulheres recebiam cerca de 26,5% a menos que homens na mesma posição. E segundo a pesquisa “A mulher publicitária, preconceito e espaço profissional: estudo sobre a atuação de mulheres na área de criação em agências de comunicação em Curitiba” realizada em 2009, as mulheres correspondiam a menos de 20% nas áreas de criação. Em sua conclusão, o estudo aponta que muitas vezes as próprias mulheres contavam casos de discriminação sem entender como tal: “Percebe-se, assim, que a discriminação por parte do gênero masculino em relação ao feminino está tão enraizada na profissão, que acaba sendo acatada como uma manifestação sociocultural natural para as mulheres que trabalham dentro desses ambientes extremamente machistas. O discurso dos indivíduos que atuam na área, afirmando que existem mulheres que não servem para essa profissão por serem muito frágeis e fracas, é típico da construção hierárquica desigual da sociedade, que surge de seus tempos mais remotos.”
“Existe quase uma ordem natural de colocar as mulheres nas áreas de atendimento e gerenciamento de projeto do que em qualquer outra. existe uma série de piadas extremamente machistas e misóginas que ‘brincam’ com essa relação de mulher sempre virar atendimento”. F.B, 32
O anúncio da Always com Sabrina Sato que quer falar sobre vazamento menstrual e de imagens íntimas / Foto: Reprodução
O anúncio da Always com Sabrina Sato que quer falar sobre vazamento menstrual e de imagens íntimas / Foto: Reprodução
E você? O que você pensa sobre esse assunto?

Leia a matéria completa em: Machismo é a regra da casa - Geledés 

sábado, 14 de março de 2015

Publicidade, Consumo e Indústria Cultural

       1) Assista ao vídeo “Criança, a alma do negócio” e responda:
a) Relacione o título do documentário ao seu conteúdo.
b) De acordo com o documentário, como a exposição desregulada à campanhas publicitárias influencia as crianças nos seguintes itens:
- Relacionamentos (com outras crianças e com os pais)
- Desenvolvimento (psicológico, emocional, sexual...)
- Alimentação e saúde

       2) Leia o texto “Indústria Cultura e Consumo” e relacione:
a) Cada frase destacada ao conteúdo abordado no vídeo, citando exemplos (também do vídeo).
b) O conteúdo geral do texto ao conteúdo geral do vídeo.


Indústria Cultural e Consumo

Um conceito muito importante foi criado pelos pensadores da escola de Frankfurt Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973), a Indústria Cultural. Esse conceito está ligado ao que conhecemos como cultura de massa e segue a lógica do sistema capitalista, ou seja, produção em larga escala de produtos, no caso produtos culturais, tornados disponíveis para quem pode comprá-los.
O sistema capitalista percebe que uma massa emerge e, mais ainda, percebe que além de se produzir mercadorias de consumo geral para essa massa, poderia ser possível produzir, também, e em larga escala, elementos da cultura, transformando-os em mercadorias. Daí o termo cultura de massa ou para as massas, pois a partir do momento que se produz em série para o consumo do povo em geral, para existir um novo padrão de significações na visão de mundo, no que as pessoas pensam, sentem e agem.
Para os autores, existe a possibilidade de ocorrer uma homogeneização das pessoas, grupos e classes sociais, pois a indústria cultural coloca a felicidade imediatamente nas mãos dos consumidores através da compra de alguma mercadoria ou produto cultural.
[...] O desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação é um grande aliado da indústria cultural. A televisão é o meio mais forte de massificação de informações e entretenimento. No final dos filmes ou novelas existe sempre a punição do vilão, ou seja, nos é mostrada uma vida sem conflitos e uma sociedade sem desigualdades, onde as possibilidades são sempre iguais para todos. Também através dos filmes, novelas e programas de televisão somos levados a consumir produtos que são anunciados nos intervalos ou aparecem sendo usados pelos atores e apresentadores durante a exibição do programa, criando ou modificando hábitos e criando a necessidade cada vez maior de consumo da sociedade, ligando a felicidade ao ato de comprar determinado produto.

Texto extraído do material pedagógico de apoio para Sociologia, disponível para professores em www.conexaoprofessor.gov.br 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Você já ouviu falar em Patrimônio Cultural?


Você já ouviu falar em patrimônio cultural? O patrimônio cultural é composto de bens materiais e imateriais que devem ser preservados por causa da sua relevância para uma região, cidade, país ou mesmo para toda a humanidade. O que determina que um bem seja considerado patrimônio cultural é a sua afinidade com a identidade ou cultura de um povo..

Os bens materiais podem ser construções e bens imóveis, como monumentos, igrejas e outros prédios de importância histórica ou arqueológica. Um conjunto de edificações, como é o caso das cidades de Olinda e Ouro Preto, MG, também pode ser considerado patrimônio cultural.

Já os bens imateriais constituem-se das manifestações artísticas, da música, do folclore, da linguagem, dos costumes e até mesmo dos hábitos culinários característicos de um determinado lugar. São considerados patrimônios culturais brasileiros ritmos como o jongo e o samba e comidas típicas como o baião-de-dois, o acarajé e a feijoada.

No Brasil, como você pode conferir aqui, a miscigenação fez que muitos bens relacionados à cultura englobassem características de outros povos, especialmente de índios, negros e uma gama imensa de imigrantes (portugueses, italianos, alemães, árabes, judeus etc.). Embora em sempre a convivência entre tantos povos tenha sido harmônica, pode-se afirmar que dessa diversidade formou-se o que chamamos de cultura brasileira.

 O órgão responsável pela preservação patrimonial no Brasil é o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN. No site deles é possível descobrir alguns bens materiais e imateriais já protegidos. Clique aqui e confira.

Adaptado de : "10 Lições de sociologia para um Brasil cidadão", de Gilbert Dimenstein et. all.

Cultura Brasileira




Ao longo da história, a base da população brasileira foi constituída pela intensa mestiçagem entre índios, africanos e portugueses (além de pequena participação de franceses e holandeses). Durante os dois primeiros séculos de formação do nosso povo, essa foi a marca que o distinguiu. A partir daí, todo imigrante estrangeiro só reforçou a nossa miscigenação.

Isso quer dizer que a base da nossa cultura resulta da mistura não apenas de três etnias, mas, sobretudo - o que é importantíssimo - de três culturas diferentes. E essa informação é muito mais relevante do que se costuma imaginar. Um dado biológico acerca do brasileiro: a grande maioria do nosso povo tem sangue indígena e mais da metade tem sangue negro. Um dado antropológico (cultural) do povo brasileiro: a colonização portuguesa no Brasil só foi possível porque nós assimilamos e adaptamos os saberes coletivos de índios e negros [e brancos], que nos permitiram sobreviver no mundo tropical, extremamente difícil de ser administrado pelos padrões (culturais) europeus. [...]

Embora as origens da nossa população e da nossa cultura tivessem por base três povos com saberes coletivos muito distintos, uma semelhança curiosa nos unia. Um traço comum às três culturas: privilegiar o presente e não pensar no futuro de longo prazo.

Para um povo indígena que vivia em aldeias ultra saudáveis e num meio ambiente farto e bem conhecido não fazia sentido se preocupar com o amanhã. Todos sabiam que  a sobrevivência estava garantida e que a natureza forneceria tudo o que fosse necessário ao longo do ano inteiro.

Para o africano trazido à força, a condição de escravo impunha pensar apenas na sobrevivência do dia seguinte. Mirar o futuro, em geral, só o fazia deparar com a triste perspectiva de consumir a vida num trabalho brutal, sem família, sem vida própria.

Para o português que viera aventurar-se em terras tropicais, o que o movia era a chamada "febre do ouro". [...] No Brasil, o português tinha pressa. Habitualmente, ele não vinha construir um mundo novo, mas usufruir das riquezas e a liberdade que a Europa seria impossível obter. Assim, é de se supor que os portugueses, em geral, estavam aqui "narcotizados" pela perspectiva do curto prazo: gozar o dia de hoje numa terra sem pecado e sonhar com a sorte de amanhã.

A confluência de três culturas referentes à perspectiva do curto prazo tornou-se uma marca importante na formação da cultura brasileira. A partir do século XIX, no entanto, um fato histórico importante interferiu nessa tendência: a imigração de outros povos com perfis culturais diferentes para o Brasil.

Alemães, italianos, judeus, árabes e japoneses, todos de origem muito humilde, instalaram-se em diversas regiões do país com o firme propósito de construírem um mundo bem mais próspero para eles mesmos, suas famílias e seus descendentes. Para esses imigrantes, a perspectiva do longo prazo era essencial. Toda sua estratégia estava assentada na construção de um futuro em nome do qual abandonaram suas pátrias e, para isso, dispuseram-se a enfrentar um mundo desconhecido e quase sempre muito hostil.

O sucesso do imigrantes e seu traço cultura de pensar o dia de amanhã influenciaram sobremaneira no padrão cultural brasileiro: o de pensar, sobretudo, no dia de hoje.
 
Extraído de: "10 Lições de Sociologia Para um Brasil Cidadão", de Gilberto Dimensteis et. all.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O que cabelo tem a ver com racismo?

O que cabelo tem a ver com racismo?
 Hoje me deparei com o seguinte comentário nessa rede social de meu Deus: “O que tem a ver racismo com mandar a Blue Ivy pentear o cabelo?
Bom, vamos por partes né? Embora muita gente não saiba (nem sei se ela sabe), mas a Beyoncé é negra (OOOHHH). Sério, ela não é moreninha, café com leite, queimadinha, mulata e outros eufemismos que vocês acham interessante usar porque acham que é muito pesado dizer que uma pessoa é de fato NEGRA. Jay Z também, mas isso ninguém discute porque a negritude dele é indisfarçável.
Logo, Blue Ivy nasceu com cabelos crespos… cabelos esses que crescem pra cima e acreditem não há nada de monstruoso nisso.
Querer submeter um bebê a padrões estéticos eurocêntricos é querer que ela esconda suas origens, porque essas são aparentemente não convencionais e não encontro outra palavra pra definir que não seja racismo.
Uma amiga em um post do seu Blog Reapresentando Cores usou um termo interessante: “Ativismo de Cabelo”. Muita gente pode não entender a necessidade de estarmos o tempo todo afirmando que cabelos crespos não necessitam ser “domados”, não estamos carregando nenhum animal raivoso em nossas cabeças (às vezes eu queria que ele fosse pra abocanhar pessoas que acham certo criar uma petição online para pedir que uma criança de 2 anos penteie seu cabelo). Falaram para “pentear para baixo”, “prender com um arquinho”. Bom, vou contar pra vocês a realidade de uma criança de cabelo crespo, vou contar a realidade que graças a Deus não é a da Blue, caso fosse não causaria tanto incômodo. Nossas mães na tentativa de deixar com a aparência que determinaram como “boa”, penteavam nossos cabelos muitas vezes a seco, causando uma tremenda dor, desembaraçavam e prendiam todo pra trás, nossos olhos chegavam a ficar puxados. Mas okay, nosso crespo socialmente inaceitável, estava domado, era o que esperavam da gente até que chegasse uma idade onde finalmente poderíamos fazer usos de químicas altamente corrosivas, ferros quentes e assim tentassem embranquecer nossos traços.
bruna-de-paula
Recebo mensagens de amigas professoras falando que cada vez mais cedo percebem que as mães buscam procedimentos químicos para alisarem ou relaxarem os cabelos de suas crianças. Eu acho um ato criminoso, porque além de fazer mal a saúde, faz mal a identidade. Essa criança vai crescer entendendo que alisar é o procedimento padrão, que é tão natural quanto se alimentar. Por isso muita gente não considera racismo falar de cabelo, diz que é questão de gosto. Não é estranho ser senso comum considerar justamente um determinado tipo de cabelo como ruim? Não é estranho que o bom seja aquilo que seja mais próximo de uma característica branca?
Sabemos que a população negra enfrentam vários outros desafios sociais, que muitos consideram essa questão de cabelo como secundária ou como algo que nem há necessidade de ser abordado. Mas o corpo é aquilo que somos e essa relação precisa ser bem desenvolvida. O racismo desumaniza, nos faz criar rejeição pelo nosso próprio corpo. Os padrões de beleza cerceiam a liberdade a ponto de atingir uma criança que não deve ter preocupação com cabelo ou qualquer outra coisa. Que mais mães tenham consciência de que o cabelo tem forte significado na construção da identidade da pessoa negra. Que ninguém mais tenha que se envergonhar pelo seu corpo livre de padrões.
E sim, seremos ativistas de cabelo enquanto for necessário.

Fonte: Cultura Upload, por Bruna de Paula