A
cultura de uma determinada sociedade pode diferir profundamente de
outra, o que é sagrado para uma pode ser repugnante para outra, o que é
certo para uma pode ser errado para outras. Veja alguns exemplos:
- O
homem recebe do meio cultural, em primeiro lugar, a definição do bom e
do mau, do confortável e do desconfortável: Os chineses
preferem os ovos podres e os oceanenses o peixe em decomposição. Para
dormir, os Pigmeus procuram a incómoda forquilha de madeira e os
Japoneses deitam a cabeça em duro cepo.
- O homem recebe do seu meio
cultural um modo de ver e de pensar: No Japão considera-se delicado
julgar os homens mais velhos do que são e, mesmo durante os testes e de
boa-fé, os indivíduos continuam a cometer erros por excesso.
- O homem
também retira do meio cultural as atitudes afetivas típicas: Entre os
Maoris [Nova Zelândia], onde se chora à vontade, as lágrimas correm só
no regresso do viajante e não à sua partida. Nos Esquimós,
que praticam a hospitalidade conjugal, o ciúme desapareceu (...). Nas
ilhas Alor [Indonésia], a mentira lúdica considera-se normal; as falsas
promessas às crianças constituem um dos divertimentos dos adultos. O
mesmo espírito encontra-se na ilha de Normanby onde a mãe, por
brincadeira, tira o seio ao filho que está a mamar.
O respeito pelos
pais sofre igualmente flutuações geográficas: O pai conserva o direito
de vida e de morte entre os Negritos das Filipinas e em certos lugares
do Togo, dos Camarões e do Daomé. Em compensação, a autoridade paterna
era nula ou quase nula nos Kamtchatka [da Sibéria] pré-comunistas ou nos
aborígenes do Brasil. As crianças Taraumaras [do México] batem e
injuriam facilmente os pais. Entre os Esquimós o casamento faz-se por
compra. Nos Urabima da Austrália um homem pode ter esposas secundárias
que são as esposas principais de outros homens. No Ceilão [atual Sri
Lanka] reina a poliandria fraternal: o irmão mais velho casa-se e os
mais novos mantêm relações com a cunhada. (…) O amor e os cuidados da mãe
pelos filhos desaparecem nas ilhas do estreito de Torres [Austrália] e nas ilhas Andaman [Índia],
em que o filho ou a filha são oferecidos de boa vontade aos hóspedes da
família como presentes, ou aos vizinhos, como sinal de amizade. A
sensibilidade a que chamamos masculina pode ser, de resto, uma
característica feminina, como nos Tchambuli [Nova Guiné], por exemplo,
em que na família é a mulher quem domina e assume a direção.
Os
diferentes povos criaram e desenvolveram um estilo de vida que cada
indivíduo aceita – não sem reagir, decerto – como um modelo.
Lucien Malson, As crianças selvagens, Livraria Civilização, 1988, pp. 26-28.
